Religioso porquê?

Muito cedo deixou de haver qualquer obrigação de ir à catequese ou à missa. A minha irmã, por exemplo, cedo, criança ainda, decidiu não ir. Não havia hábitos religiosos em casa, não se rezava antes da refeição, nem à noite em conjunto. Os meus pais, quando eu era novo, nem sequer tinham o hábito de ir à missa.

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Sonhou um dia certa pessoa assim

Na terra onde não há televisão, as crianças esfolam os joelhos ao brincar. Têm as mães a água oxigenada e a betadine sempre à mão. E as avós conhecem mezinhas que já as suas avós conheciam. Na terra onde não há televisão, caixinha mágica é o nome do baú que existe em cada sótão. E que guarda brinquedos de madeira e livros de colorir.

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É melhor pedir

Era novo. Em vez de cabelo comprido e desgrenhado, uma popa bem amanhada com gel num cabelo curto não muito sujo. Foi a voz o que primeiro me atingiu. “Ó colega! Ei! Colega! Ei, não estás a ouvir? Espera! Ó colega, Ó!”. Não faltou ao chamamento obstinação e vigor. Faltou-lhe a delicadeza formal que se reconhece exactamente por não chamar a atenção, na sua subtileza treinada. Chamou-me gritantemente a atenção, disparando os dispositivos de alerta, um tão confiante e irreverente autoritarismo. Alarguei um pouco a passada. Fiz por representar um à-vontade natural e despreocupado, enquanto procurava afastar-me da fonte sonora que me interpelou.

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Aprendemos o mesmo? E o que concluímos?

Tinha o cabelo curto. Vestia-se de maneira sóbria, quase sempre de preto ou com cores escuras próximas do preto. Tinha o cabelo muito curto. Cortado à máquina. Usava ganga, nas calças, num ou noutro casaco. Não falava muito. Tinha um sorriso tímido, simpático e irremediavelmente envergonhado. Era magro. E o cabelo. Sim era muito curto o cabelo, mas isso nunca me tinha chamado a atenção. Eu também já tive o cabelo cortado à máquina. Só reparei como era curto o cabelo - rapado - e nos cadernos com mensagens alusivas a algo que não decifrava por não olhar de forma atenta, depois de um outro colega me dizer, "sabes, ele tem uma ideologia, ele, nunca reparaste? eu já, em conversa com ele, ele disse-me aquilo em que acreditava, ele é de extrema direita,". Não respondi, não me vieram imediatamente à cabeça os fantasmas dos movimentos de extrema direita. E não me lembro de ter mudado a forma de falar com ele, o colega de cabelo curto e sorriso tímido. Era um tipo normal. Não sei o que significa dizer que ele era normal. Sei que, acredito que, ele não era um monstro, sedento de manifestar o ódio a todo o momento, não me parecia uma pessoa violenta. No entanto o seu sistema de valores assentava em fundamentos próximos de ideologias que foram responsáveis por atrocidades. Não cheguei a falar com ele sobre isso, nem ele tinha a iniciativa de puxar o tema.

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Sporting na Final

Os meus mais ou menos moderados berros a comemorar uma bola que entra dentro de uma baliza fizeram-me lembrar uma história contada por Jahn Nyanarato, no retiro. Há uns anos, no Japão, decorria um importante campeonato universitário de kendo. Na final, duas fortes equipas se defrontavam. Há medida que os elementos das duas equipas lutavam individualmente entre si, uma das duas equipas ia ganhando sistematicamente cada combate.

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Vida

 Ei-lo, na tranquila imobilidade em que cresceu. Não que exista imobilidade. Antes uma quietude em que os seus ramos encontram espaço. Um tempo sem a sofreguidão do tempo. No fim do dia é um verde escuro que os olhos descobrem onde há umas horas um quase translúcido verde brincava com as cintilações que o sol enviava. Uma brisa confirma a existência do movimento. algumas folhas dançam uma descida até ao solo. Caem sobre robustas raízes. Os fundamentos que demoraram uma vida a consolidar. Este tronco começou, em promessa ainda, numa semente minúscula. Tão insignificante que os pássaros não a escolheram como alimento, ou talvez nem a vislumbrassem.

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