Crónicas

 

 

Religioso porquê?

Muito cedo deixou de haver qualquer obrigação de ir à catequese ou à missa. A minha irmã, por exemplo, cedo, criança ainda, decidiu não ir. Não havia hábitos religiosos em casa, não se rezava antes da refeição, nem à noite em conjunto. Os meus pais, quando eu era novo, nem sequer tinham o hábito de ir à missa.

Houve, é certo, a feliz integração num imenso grupo de jovens de todas as idades, que contribuiu para que eu crescesse rodeado de pessoas com quem me identificava, da minha idade, mais novos e mais velhos, mas sempre próximos da mina forma de pensar. E outra coisa pode dar azo a alguma religiosidade mais primária, assente nos sentidos e no deslumbramento. Algumas fazes da bipolaridade são dadas a experiências que se podem chamar de êxtases religiosos, sem necessidade de forçar muito o conceito.

De resto, passei pelas fases todas da adolescência. por rebeldia e desobediência quase militantes. Mas nunca vi numa possível negação da religião que me foi ensinada uma forma de emancipação. Sempre fui muito crítico, iniciava debates na catequese, contrariava algumas ideias nas reuniões, colocava questões, mesmo se fossem incómodas. Mas sempre me continuei a identificar com a ética da proposta cristã.

Mais tarde, e desde há alguns anos, afastei-me da Igreja Católica. É essa a expressão, afastamento. Não abandono. Posso estar a alguma distância mas não estou a anos luz. Continuo a ser intimamente religioso. Acolhi pensamento e prática de outras tradições. Não há um rito que se sobreponha a todos os outros. Mas é a Deus que continuo a rezar. Continuo a chamar-lhe Meu Deus. Acredito na reencarnação e na importância do karma. Acredito que todas as religiões genuínas (e disponho-me a explicar, a pedido, o que entendo por genuíno) são caminhos positivos, alternativas viáveis, todas concorrem para a felicidade e a lucidez. Incluo as religiões panteístas, as politeístas, as religiões ditas primitivas de povos ditos primitivos. As religiões, nesse prisma, são uma tradução simbólica e ritualizável, do mundo emocional mais intangível e remoto mas essencial, da ânsia de espiritualidade feita do concreto da experiência, do desejo e das soluções para se ter uma cultura em que a transcendência é quotidiana, está impregnada nos nossos dias e na nossa carne.

Porque sou religioso? É correcto dizê-lo se não pratico uma religião em detrimento das outras? Nos perfis do Hi5, entre outras plataformas sociais, há a opção de nos apresentarmos como "espiritual mas não religioso". Eu acredito que espirituais somos todos. E sigo, como leigo ignorante mas curioso, as descobertas sobre a mente. Que fazem com que o nosso lado psíquico deixe de ser etéreo para tornar palpáveis os mecanismos, as manifestações, a existência da mente humana. Já ouvi dizer que quanto mais se sabe de ciência mais se acredita que existe Alguém a tomar conta das coisas, como já ouvi dizer que quanto mais estruturamos a razão e o conhecimento científico mais se vê como superstições o que tínhamos por práticas ou crenças religiosas. Não me parece que haja regra. O nosso percurso depende de muitos factores.

A educação tanto serve para fazermos dela bandeira como para a renegarmos. O contexto é importante mas não explica nada de forma definitiva e irredutível. Há sensibilidades diferentes e mesmo atitudes diferentes em relação ao mesmo tipo de sensibilidade. Há pessoas mais apaziguadas e outras mais agitadas interiormente. Há quem se defina por oposição aos outros, dentro e fora do teísmo e dentro e fora da religião (e teísmo e religião não é a mesma coisa, há religiões em que não há Deus ou deuses nem nada que se assemelhe). Há personalidades mais e menos dogmáticas dentro da ciência como no seio das religiões. É tão redutor pensar-se num ateu como em alguém emancipado por oposição a um religioso como alguém limitado como pensar-se num religioso como alguém de grande profundidade e perspectivas em relação à vida por oposição a ver-se um ateu como alguém que não investe na sua vida interior. É, acredito profundamente, tão importante haver religiões como correntes de ateísmo. Uns e outros não se anulam: completam-se, questionam-se..

16 outubro 2007              

 

Sonhou um dia certa pessoa assim

Na terra onde não há televisão, as crianças esfolam os joelhos ao brincar. Têm as mães a água oxigenada e a betadine sempre à mão. E as avós conhecem mezinhas que já as suas avós conheciam. Na terra onde não há televisão, caixinha mágica é o nome do baú que existe em cada sótão. E que guarda brinquedos de madeira e livros de colorir.

Na terra onde não há televisão, o serão não é presidido por um concurso ou uma telenovela. A vida passa toda em directo. Não difere de si mesma. E coisas importantes se sucedem sem que todos saibam, ao mesmo tempo. As notícias correm de boca em boca. E são as pessoas que acrescentam pontos, não a fome de furos jornalísticos. Na terra onde não há televisão, uma silly season é um Inverno tórrido ou um Verão chuvoso.

Na terra onde não há televisão, ninguém é “audiência para a solidão”. Diz o velho louco da aldeia que a solidão é como a caspa, sacode-se dos ombros mas o melhor mesmo é cuidarmos de nós próprios, da higiene e afins, e ela desaparece. Diz outras coisas, e todas elas na fronteira entre o absurdo e o senso comum. E todas são escutadas com atenção, paciência ou ironia. Só a indiferença parece ausente dos rostos e gestos das gentes, como um cuco que nunca encontrou ninho alheio para usurpar.

Na terra onde não há televisão, ao jantar fala-se, entre garfadas e goles. Fala-se sobre tudo e sobre nada. Sobretudo sobre o dia passado na escola ou no trabalho. E até sobre isto e aquilo. Sobre acoloutro. Sobre o que aconteceu a fulano, beltrano e cicrano. Fala-se de novidades e banalidades, do quotidiano e da efeméride. Fala-se, sem a liturgia audiovisual celebrada por um pivô de noticiário.

Na terra onde não há televisão, as pessoas sabem o que é um comando e o que são canais, sabem distinguir um telejornal de um reality show. É bastante entretidas que olham para um televisor, de visita aos lugares vizinhos ou em férias. Na terra onde não há televisão chegam as ondas dos satélites e o barulho dos motores. Chegam jornais e revistas. E todos se lembram muito bem de quando o louco da aldeia, antes de enlouquecer, propôs o impensável. Logo a seguir demitiu-se da presidência da Junta de Freguesia, gozado pela sua excêntrica ideia. Agora ainda o gozam, com uma mistura de condescendência e ternura. Mas é quando ele diz, em monólogos intermináveis, que estava errado. Que a televisão não é coisa sem a qual se sobreviva condignamente
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15 setembro 2007           

 

É melhor pedir

Era novo. Em vez de cabelo comprido e desgrenhado, uma popa bem amanhada com gel num cabelo curto não muito sujo. Foi a voz o que primeiro me atingiu. “Ó colega! Ei! Colega! Ei, não estás a ouvir? Espera! Ó colega, Ó!”. Não faltou ao chamamento obstinação e vigor. Faltou-lhe a delicadeza formal que se reconhece exactamente por não chamar a atenção, na sua subtileza treinada. Chamou-me gritantemente a atenção, disparando os dispositivos de alerta, um tão confiante e irreverente autoritarismo. Alarguei um pouco a passada. Fiz por representar um à-vontade natural e despreocupado, enquanto procurava afastar-me da fonte sonora que me interpelou..

Nova dose. “Ó colega! Não ouves? Estou a chamar por ti, ei!”. O ditongo no final da frase já denunciava mais proximidade do que a que me apetecia. Não valia a pena insistir num alheamento artificial e não me apetecia correr. Parei e virei-me para trás. Pensei que me ia pedir um cigarro, este rapaz que se aproximou rapidamente, saltitando dois ou três passos para me apanhar num instante. Trouxe uma conversa já conhecida. Antes ainda um extraordinário pedido de satisfações. “Então não me ouviste, não reparaste que estava a chamar?”.

A recorrente pose confiante, mas não ostensivamente agressiva, sustentou a explicação. “Quando um desconhecido se põe assim a chamar por nós… o que queres? Não se dá confiança assim a uma pessoa qualquer”. Rapidamente desaguou no assunto. A conversa protótipo já ouvida tantas vezes. “Ó colega, estou a ressacar, não me arranjas qualquer coisa, tou memo ressacado, pá. É melhor pedir que roubar. Arranja uns trocos, qualquer coisa.” Entretanto já eu tinha retomado o passo, dando-lhe um tom de decisão e de cautela mas não amedrontamento. Depois de lhe dar algum dinheiro, veio o esboço de um sorriso, gestos grandiloquentes com os braços, mas o olhar fixo e ausente não se chegou a iluminar, creio. Um aperto de mão à jovem. E logo se conversa como amigos de longa data, que só precisam de actualizar o conhecimento mútuo, depois de um reencontro.

“Eu até à minha mãe roubo”. “A minha namorada, ela… já não a vejo há… ela nunca me fez isto”. “A heroína é uma merda”. Salpico de perguntas a nossa conversa. “Que idade tens?”. 19. “E continuas a estudar?”. Não, deixei. “Mas procuras emprego?”. Sim, pá, eu estou inscrito em toda a parte, tenho o meu nome na Addeco, mas ninguém me chama. E tento então firmar alguns conselhos, resgato o meu bom senso e atiro-o com alguma ternura e voz de tipo mais velho. “Mas não desistas, continua a procurar emprego”. “Tens o teu dinheiro, é outra coisa”. “Continua a insistir”. E o papel de quem ouve e sabe que é assim, um papel desempenhado com sinceridade e profissionalismo. “Eu não quero isto, ouve o que eu te digo, a heroína fode tudo”. “Eu quero mudar, julgas que eu não quero mudar?”.

Já a porta de casa não tardaria, duas esquinas dobradas e pronto. Há que dar atenção aos alertas, que tinham apenas afrouxado. Não me apetece que ele fique a saber onde moro. Depois dos papéis e das sinceridades de cada um, o regresso ao habitual. “Colega, desculpa, mas não tens mais qualquer coisita?, ó pá, o que tiveres”. Não. “Qualquer coisa, pá, não sejas assim”. Não, não tenho mais dinheiro, já te dei o que tinha. “Qualquer coisa”. Olha, vês, tenho a carteira vazia. Olha! Tenho 20 cêntimos! A primeira esquina é deixada para trás. Ainda tempo para a frase afagadora do ego. “Ó pá, se fossem todos como tu”. Contaminada no entanto por um tom [não tão] vago [assim] de súplica. “Mas ninguém me ajuda, ninguém”. Ainda fôlego para a firmeza e o bom senso. “Tens de ser tu, ajuda-te, tens de tratar de ti. Tu, ok?”. E desapareceu sem assentir com a cabeça antes da última esquina e da porta de casa. A minha casa.

1 Agosto 2007           

 

Aprendemos o mesmo? E o que concluímos?

Tinha o cabelo curto. Vestia-se de maneira sóbria, quase sempre de preto ou com cores escuras próximas do preto. Tinha o cabelo muito curto. Cortado à máquina. Usava ganga, nas calças, num ou noutro casaco. Não falava muito. Tinha um sorriso tímido, simpático e irremediavelmente envergonhado. Era magro. E o cabelo. Sim era muito curto o cabelo, mas isso nunca me tinha chamado a atenção. Eu também já tive o cabelo cortado à máquina. Só reparei como era curto o cabelo - rapado - e nos cadernos com mensagens alusivas a algo que não decifrava por não olhar de forma atenta, depois de um outro colega me dizer, "sabes, ele tem uma ideologia, ele, nunca reparaste? eu já, em conversa com ele, ele disse-me aquilo em que acreditava, ele é de extrema direita,". Não respondi, não me vieram imediatamente à cabeça os fantasmas dos movimentos de extrema direita. E não me lembro de ter mudado a forma de falar com ele, o colega de cabelo curto e sorriso tímido. Era um tipo normal. Não sei o que significa dizer que ele era normal. Sei que, acredito que, ele não era um monstro, sedento de manifestar o ódio a todo o momento, não me parecia uma pessoa violenta. No entanto o seu sistema de valores assentava em fundamentos próximos de ideologias que foram responsáveis por atrocidades. Não cheguei a falar com ele sobre isso, nem ele tinha a iniciativa de puxar o tema..

Passaram-se alguns anos até ao momento presente. E, na altura, vários anos se tinham passado desde o enfoque da comunicação social num partido de extrema direita cuja sigla aparecia muitas vezes nas paredes sujas com mensagens racistas e publicidade aos senhores de cabeça rapada e botas da tropa. Muitas vezes, na parede surgia M.A.N. e Skinheads, lado a lado. Na altura, era eu muito novo, falava-se dos surtos de extrema direita em Lisboa e no Porto, da violência associada a estes grupos. Durante muito tempo, e até à altura em que fui colega do meu colega, não ouvi falar de forma sistemática no assunto. Pelos vistos a moda tinha passado, mesmo as notícias de incidentes na Alemanha e em França, principalmente, em que chegaram a ser atacados imigrantes portugueses, pararam. Algumas notícias, de entre um manancial que parecia inesgotável, eram chocantes, como a profanação de um cemitério judeu, em que foram destruídas campas e desenterrados cadáveres.

Agora há novamente muitas notícias sobre o tema. Mas a imagem que surge dos rapazes que até ostentam um nome que na origem nem sempre teve a ver com a extrema direita, é mais limpa. Não há frequentemente notícias de desacatos - ou eu estou muito desatento. Passaram-se quase 12 anos desde o assassinato no Bairro Alto, tendo já sido libertados da prisão os envolvidos. Nunca mais vi na televisão o tipo alto, de óculos e cabelo curtinho que [há mais de quinze anos, penso] se dizia racialista e não racista. Agora os skinheads podem ter filiação partidária, se o desejarem. Podem escolher ser uma franja de um partido que vai a votos. Organizam-se sessões de recrutamento, ou de esclarecimento sobre os ideais nacionalistas [se recrutamento for palavra injusta ou descabida] junto ao portão das escolas secundárias. E recentemente: a primeira candidatura [mediatizada] a uma associação de estudantes numa universidade. Lembramo-nos das notícias [as imagens da televisão, principalmente, devem estar presentes] das manifestações onde se ouviam palavras de ordem nacionalistas, e onde em alguns focos se levantavam os braços direitos na saudação que é sinónimo, para a maioria das pessoas, de horror e holocausto.

Quando eu era um miúdo, novo demais talvez para ver algumas imagens, mas não novo demais para saber a verdade, vi na televisão uma série sobre o nazismo e o extermínio dos judeus. Passou no horário nobre, não sei se logo a seguir às notícias, mas não era a uma hora tardia. Hoje há meia dúzia, pelo menos, de canais onde se multiplicam documentários sobre a II Guerra Mundial, sobre o regime de Hitler, sobre o plano diabólico de eliminar um povo. O que não era tão frequente, na altura em que vi aquelas imagens, parece-me, era a abundância de vozes que insistem em dizer que nos são vendidas mentiras, que toda a comunicação social propaga, que a história não é como lemos nos livros, que há uma conspiração de esquerda e com a mão dos judeus para enganar o mundo todo. Ou melhor, sempre existiram essas vozes, mas agora dá a impressão que estão a chegar ao céu. Ou pelo menos aos escaparates. Este assunto será um dos que me torna presente que, com a minha idade, já existe algum gap em relação às gerações mais novas. Quando eu tinha 14, 15 anos, era inconcebível, entre os meus amigos, em casa, nos ambientes que frequentei, esperar ouvir discursos de apoio a estes tipos de extremismo, ou a muda aceitação de barbaridades ideológicas. Todas estas palavras, fascismo, nazismo, skinheads eram sinónimo de mal. Representavam o mal, eram expressões da parte odiosa da humanidade. Hoje penso que não é mais possível pensar assim de forma simplista e relaxar a seguir.

Os miúdos que seguem blogues que publicitam formas de pensar que vão aos períodos mais negros do séc. XX buscar a sua inspiração e depois acrescentam umas pitadas simbólicas e históricas à coisa para que fique a cheirar a português, são os filhos dos nossos vizinhos, não são apenas sombras vestidas de forma militarizada e com a voz distorcida ao falar para o repórter na televisão. Sendo ainda um fenómeno com pouca expressão numérica - na sua forma mais extrema - já é uma situação que assola todo o país e que consegue penetrar nas escolas e adquirir contornos identitários. Quando era adolescente eu podia escolher ser metaleiro ou vanguarda, mais tarde fui mesmo um grunger, mas não estava presente a politização, muito menos na sua face nacionalista, entre o cardápio de grupos e modas a que aderir. Claro que a situação não é para ser levada de ânimo leve, mas com que grau de profundidade um miúdo de 15 anos começa a debitar os chavões revisionistas, com que sentido de futuro é que passa a vestir-se conforme vê nos mais velhos que lhe vão levar panfletos à escola e servir como modelo de machão impoluto pela escória reinante, patriota irrepreensível e português até ao tutano? O problema é que não sei mesmo qual a resposta. Já é motivo de perplexidade que as mentiras e a deturpação histórica e científica consiga passar por cima da argúcia e da rebeldia intelectual adolescente, da tendência a questionar, a procurar um caminho próprio. Claro que se pode dizer que assumir estes ideais e esta pose é já uma forma de rebelião e de afirmação. Mas serão assim tão desprovidos de sentido crítico, terão assim tão pouco acesso à informação que engulam o que lhes é dito? E a educação, terá sido desde o início minada por conceitos e visões redutoras, exclusivas, racistas? Custa-me a acreditar que sou muito diferente do colega que tive e que falava pouco e tinha uns cadernos com coisas escritas.

Preocupa-me algo que começa a parecer mais do que apreensão e pessimismo: o ambiente em volta destes jovens é mais propício a um pensamento monolítico em que multiculturalismo é uma obscenidade e em que raça é palavra que se aplica a pessoas para as distinguir. O facto de ter ganho o Salazar num concurso significa alguma coisa, mesmo se a votação foi inflacionada pela participação organizada e militante de uma minoria. Mas preocupa-me mais a proliferação de alguns comentários xenófobos recorrentes, a não aversão aos ideais extremos, radicais [o que lhe queiram chamar: é comum, quando se tenta dar um nome, ouvir todo o tipo de conversa da treta, desde dizer que na esquerda também há a extrema esquerda e essa ninguém critica até elaboradas e sofistas divagações sobre o que é o nacionalismo e como é tão diferente do fascismo], preocupam-me as frases que começam com "eu não sou de extrema direita mas" e acabam com a repetições de clichés de um pensamento que alguns procuram difundir, cada vez com mais sucesso. Preocupa-me pensar que há pais que olham para o filho que veste roupas que remetem para a associação com ideologias de ódio, que repete as baboseiras que leu na internet ou que troca com os colegas do grupo como se fossem pérolas filosóficas, e que não o ouvem com preocupação mas com orgulho. Falar dos valores da nação, da necessidade de respeito e mão forte, da pureza da "raça" portuguesa, de como nos estão a invadir e a roubar os empregos não assusta nem serve de alerta para uma parte dos progenitores, receio.

Lembro-me de os meus pais porem constantemente em causa a forma de eu me vestir, as ideias que levava para casa, de discutirem comigo o pensamento que me parecia tão absoluto que, até me surgirem outras ideias mais atraentes, me levava a acaloradas sessões de arremesso de argumentos e esgrimir da minha vontade, que se estava a definir. Aceito e defendo que somos todos muito parecidos, no essencial nem nos distinguimos. Será que é ensinado o mesmo nas casas dos miúdos que agora se deixam seduzir por estes ideais? Será a adesão, aparentemente cega, a este tipo de pensamentos e atitudes algo que passará ao crescerem? Terão acesso à mesma informação que eu tive? Que conclusões tiram sobre o mundo, depois do que lhes é apresentado? O que está a caducar é uma forma de estar em que ficamos calmamente à espera que estes fenómenos se ostracizem a si mesmo, que fiquem na marginalidade a que já não são se limitam. É nos pátios das escolas que fervem estes germes, nos nossos bairros. E querer eliminá-los ou fingir que não existem não é possível. Nem é sustentável alimentar o fosso de incomunicação com os mais novos. Outros, que estudaram técnicas de persuasão ou pelo menos se preparam muito bem, tomam a iniciativa do diálogo.

26 março 2007           

 

Sporting na Final

Os meus mais ou menos moderados berros a comemorar uma bola que entra dentro de uma baliza fizeram-me lembrar uma história contada por Jahn Nyanarato, no retiro. Há uns anos, no Japão, decorria um importante campeonato universitário de kendo. Na final, duas fortes equipas se defrontavam. Há medida que os elementos das duas equipas lutavam individualmente entre si, uma das duas equipas ia ganhando sistematicamente cada combate. O vencedor era acolhido pelos companheiros com abraços efusivos, gritos, saltos e a habitual parafernália de gestos espaçosos e cheios de vigor. A outra equipa, pelo contrário, mostrava-se serena. Cada perdedor se sentava, calmamente, junto dos seus colegas. A meio dos confrontos, a equipa que estava a ganhar apercebeu-se que os seus adversários se sentavam tranquilamente. Começou a fazer o mesmo. Continuaram a combater com empenho os dois lados. Mas agora todos, independentemente da vitória atingida ou da derrota sofrida, se reuniam com os companheiros com tranquilidade e equilíbrio. Assim pode ser na vida, disse o venerável mestre japonês naquele fim-de-semana. Lutamos diariamente. Ganhamos. Perdemos. Mas podemos sempre sentarmo-nos tranquilamente. Sem apego, dor ou agitação. Aceitando da mesma forma o que é considerado sucesso ou que se apresenta como fracasso. Dizia eu há pouco ao telefone, tinha este texto apenas duas linhas, que na televisão é visível algo inquietante. Uma cara que comemora uma vitória muitas vezes se assemelha a um rosto iracundo, colérico, furiosamente descontrolado. Mas a essência do futebol é exactamente a libertação de frustrações e recalcamentos em retumbantes catarses colectivas, diz-se. Quando há uns anos, num telejornal, se falava de Body Combat, um instrutor da "modalidade" dizia algo semelhante. Afirmava que quando se esticava a perna num pontapé sincronizado com o ritmo do tecnho-de-ginásio, pensando nas coisas que durante o dia nos irritam, toda a raiva acumulada se dissipava. A minha pergunta é: essa fúria que abandona o corpo e a mente, que sai, para onde vai ela? Não me parece muito saudável "libertar" sofrimento interior sem procurar a causa do sofrimento, sem perceber porque se sofre, sem tentar lidar com o sofrimento. O que é mais comum é procurar afogar a mágoa desta ou daquela maneira. Ou, o que será pior, arremessá-la para fora de nós sem sequer fazer pontaria.

P.S. Os meus parabéns ao AZ. Com menos dinheiro, adeptos e condições quase chegou à final.

4 maio 2005           

 

Vida

Ei-lo, na tranquila imobilidade em que cresceu. Não que exista imobilidade. Antes uma quietude em que os seus ramos encontram espaço. Um tempo sem a sofreguidão do tempo. No fim do dia é um verde escuro que os olhos descobrem onde há umas horas um quase translúcido verde brincava com as cintilações que o sol enviava. Uma brisa confirma a existência do movimento. algumas folhas dançam uma descida até ao solo. Caem sobre robustas raízes. Os fundamentos que demoraram uma vida a consolidar. Este tronco começou, em promessa ainda, numa semente minúscula. Tão insignificante que os pássaros não a escolheram como alimento, ou talvez nem a vislumbrassem.

A terra acolheu chuva, formou húmus. A semente alimentou-se, fez-se ela própria alimento. Em breve um minúsculo membro delicado irrompia. Umas quase invisíveis ramificações se começavam a estender. Entre o momento da queda na terra e o romper da penumbra para encontrar a claridade do sol outros seres cresceram. Ervas daninhas, rápidas como o susto, vivificaram. Foram mastigadas por animais, pisadas. Passou o seu ciclo natural. E a semente ainda só tinha oferecido uns milímetros acima do solo. Anos se passaram até que o exterior do tronco começasse a endurecer. Outros troncos reinavam, apontando orgulhosos ramos ao firmamento. Vieram doenças, veio a seca. Muitos sucumbiram. Ele, ainda pequeno, cresceu na discrição dos humildes. Vieram homens com seus machados. Os que tinham sobrevivido à falta de água ou ao excesso de maleitas foram abatidos pela sua madeira. Ele, cheio de nós e de estatura modesta, serviu como sombra para deleite dos lenhadores, depois do trabalho.

Vieram mais homens. Com outras ferramentas. Construíram caminhos. Outros troncos, ainda verdes, estavam no caminho. Ele, que cresceu nas rochas, não incomodou. À sua sombra se comiam agora os seus frutos sumarentos. Os homens e as mulheres tiveram filhos. Aquele tronco atraía os mais pequenos, que espreitavam os ninhos de pássaros, os buracos feitos pelos pica-paus. As magníficas e serpenteantes raízes. Faziam roda à volta dele, cantando. As crianças cresceram. Tiveram por sua vez filhos. Aos quais ensinaram as épocas em que surgiam os ninhos. As crianças aprenderam a não colher os frutos enquanto verdes. Aprenderam a dizer folhagem persistente. Aprenderam que um ninho, no meio da ramagem, era reocupado todos os anos por um casal de aves.

Entretanto já algumas árvores tinham sido plantadas. Eram de folha caduca. A sua nudez invernal fazia sobressair a densidade verde-castanha deste tronco. No verão as árvores mais jovens, plantadas já meio-crescidas e protegidas pelos homens, eram mais exuberantes, muito mais altas e com folhas mais exóticas. Mas não davam fruto. Nem a sua sombra servia. Já a sombra dele era consistente e preciosa. Sendo muito largo e baixo, com muitos ramos grossos e de ângulos abertos, era o sítio ideal para os trabalhadores que dormiam um pouco descansando do trabalho, ou os casais enamorados que conseguiam um furtivo beijo às escondidas dos pais. Ei-lo. Parece imóvel. Dir-se-ia que sempre esteve ali. Que sempre foi um ancião de casca endurecida, fraca para a lenha ou a arte dos homens. Que sempre teve o seu tamanho actual. Mas começou por ser uma insignificante semente que nem os pássaros quiseram.

4 maio 2005           

 

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